Gazeta São Mateus

Não há memória de paz na Terra

Não há memória de paz na Terra

agosto 01
11:08 2016

Escrevo no amanhecer do dia seguinte ao ataque designado como terrorista à cidade de Nice, na França. O mundo que se diz civilizado encontra-se estarrecido com tamanha violência. É realmente desconcertante ver, num cenário paradisíaco como o daquela bela cidade à beira mar, corpos e corpos espalhados pelas ruas, vítimas de um caminhão assassino. Parece coisa de filme norte americano. E como sempre, procuram-se culpados, mas ninguém se pergunta, seriamente, por quê? Então, vamos tentar pensar sobre isso, com base em informações recentes.
Nos dias anteriores ao ataque em Nice, recebi o Informação. Informativo do importante grupo (francês) de ajuda humanitária Médicos Sem Fronteira. Em seu editorial, Suzana de Deus, Diretora Geral da entidade no Brasil, nos dá algumas pistas. Permito-me reproduzir partes deste editorial, pois desejo levar aos leitores esta importante discussão. Diz Dra. Suzana:
“Enquanto escrevo este texto, no tumultuado aeroporto de Beirute, neste exato momento, milhares de pessoas fogem de guerras, desesperadas com a segurança de suas famílias. No momento em que você o lê, isso ainda acontece”. Dra. Suzana menciona o campo de refugiados palestinos de Shatila, no Líbano, lembrando que tem 500m² (área menor do que de muitos apartamentos em diversas cidades civilizadas do mundo), que existe desde 1947 e que abrigava, em 2014, 15 mil refugiados palestinos e que abriga hoje mais de 30 mil seres humanos. Sim, 30 mil pessoas em 500 m², Por quê? Graças à guerra na Síria. Não bastavam 15 mil palestinos refugiados para o mundo “civilizado”? Não. A guerra pede mais!
Além do “campo”, no Líbano, sempre segundo Dra. Suzana, “já há um sírio para cada quatro libaneses e isso sem gerar tensão migratória, mas solidariedade dos palestinos e libaneses do país em receber as famílias que fugiram. Já na Europa, líderes mostram reação contrária. O número de pessoas que ali chegam, irrisório se comparado às tantas que são recebidas em países mais pobres, assusta e é empurrado de volta à Turquia, em cumprimento a acordos medievais estabelecidos entre a União Europeia e aquele país.”
Mas, para além da falta de solidariedade com os refugiados da Europa (não vamos discutir aqui o Brexit), outra questão se coloca e diz respeito especialmente à França, um dos maiores produtores e vendedores de armas bélicas no mundo e à sua intervenção contemporânea sobre o Oriente Médio. Não estamos falando do período da colonização, que foi atroz sobre países como a Tunísia, Argélia, Nigéria, Indochina… e tais. Estamos, de acordo com o professor Reginaldo Nasser, lembrando que hoje “entre os países europeus, a França é o que mais intervém no Oriente Médio.” O professor Nasser afirma, e eu concordo plenamente: “é só não intervir, que não tem ataque”. (UOL Notícias Internacional/15.07.2016). Nasser lembra que a França viveu tempos de paz, sem ataques, quando sua política internacional não era intervencionista. Será que é tão difícil para uma sociedade ocidental, beneficiária de tanto bem estar proveniente das sociedades dependentes – apropriação de recursos naturais e mão de obra barata – manter-se a si mesma, sem se meter na casa dos outros?
Mas tem mais. Como Mohamed Ali, que era Cassius Clay antes de se converter ao Islamismo (religião que veio acolhê-lo ante uma sociedade norte americana racista, que o impedia de, simplesmente, entrar num restaurante e pedir um hambúrguer, pois “não serviam negros”), montes de jovens de origem árabe que nasceram e vivem na França e Bélgica são discriminados, que não tem trabalho e nem acolhimento por uma sociedade que os exclui, encontram no discurso dos jihadistas um lugar de “ser alguém”. Será que não dá para perceber isso? A brilhante jornalista Adriana Carranca explica sem rodeios (O Estado de São Paulo, 16/07/2016), que os promotores dos últimos atentados (Nice, França e Bélgica) não eram religiosos, mas jovens “problemáticos”, envolvidos com pequenos crimes, passagens pela polícia, discriminação familiar e social, que foram aliciados pelos terroristas, que lhes prometem sair do “nada” para ser “alguém importante”. Ter poder. Poder usar sua raiva contra a sociedade que os discrimina de forma espetacular e, passar a “ser alguém”. Meus caros leitores poderiam, a partir daqui, imaginar que o PCC deu lições estratégicas ao Estado Islâmico. Quantos de nossos jovens, pobres, na maioria pretos ou pardos, que não veem na educação nenhuma perspectiva de ascensão social e desejam “ser alguém”, andar tranquilamente num shopping center, consumir, viver.. são aliciados pelo nosso IE tupiniquim que é o PCC e outros sei lá quantos grupos criminosos? Isso se repete aqui, mas não dá Ibope a marca de 143 assassinatos POR DIA no Brasil. POR DIA!!!!!!! Por quê? Pela mesma razão que não dá Ibope ficar martelando nas TVs que mais de 10.000 crianças sírias foram mortas nessa guerra absurda (UNICE; http://noticias.uol.com.br/internacional). É mais fácil colocar a violência num lado só: o do radicalismo religioso. Mas isso é falso! O fato é que a sociedade internacional confere mais valor a algumas pessoas que a outras. Nossos jovens assassinados todos os dias e as crianças sírias mortas na guerra têm menos valor que os franceses e turistas brancos, ou “quase brancos” que passeiam pela Côte d’Azur!!
Em poucas linhas, o que aqui escrevo é bastante perturbador. Não defendo qualquer tipo de ação como a ocorrida em Nice. De jeito nenhum!! Mas se o mundo não atentar para a origem das guerras, assim como para violências e discriminações inadmissíveis que ocorrem no cotidiano, estaremos todos, como estamos brasileiros e franceses, sujeitos a tomar um tiro fatal enquanto bebemos uma cerveja, ou sermos atropelados por um caminhão tresloucado enquanto andamos placidamente pela rua.
Não sei se me explico bem, mas eu gostaria muito de ter deixado claro, que NÃO HÁ MOCINHOS nessa história!

Zulmara Salvador: Socióloga, Antropóloga, Consultora Ambiental e especialista em Educação Ambiental e Comunicação Social.

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